Talentos da Felicidade – Parte 6: Cultura e Lazer

Nos artigos anteriores já refletimos sobre cinco dimensões da felicidade: dinheiro, saúde, educação, trabalho e amigos. Antes de dar continuidade vamos fazer um breve balanço dos anteriores.

Eu já havia comentado que as três dimensões iniciais – dinheiro, saúde e educação – são aquelas que contribuem diretamente para a expansão das capacidades individuais, devido a característica de serem objetivos e recursos que empenhamos na busca de uma vida mais feliz e desenvolvida.

Essas duas últimas – trabalho e amigos – podem ser caracterizadas como dimensões voltadas para o bem-estar da vida social – que defino como a necessidade do indivíduo em ter uma boa reputação em relação ao grupo a qual pertence. Uma boa reputação é capaz de apoiar as ações e promover o aumento da auto-estima e o estreitamento de laços afetivos e/ou funcionais.

O desejo de trabalhar e ser bem-sucedido e reconhecido ou de criar laços de amizade e afeto não incrementam os recursos empenhados, pois estão ligados à reputação perante a sociedade.

Neste entendimento, a necessidade de ter um trabalho não está diretamente ligada a necessidade de ter mais dinheiro, pois a dedicação a um trabalho com significado pode ser espontânea e gratuita – como é o caso deste que vos escreve e não está um centavo mais rico escrevendo textos.

Mas se a visão do trabalho for empregada como o modo de ter mais dinheiro, o trabalho não é objetivo, é meio.

Dito isso, seguiremos adiante a falar da sexta dimensão que pode ser igualmente priorizada na busca da felicidade: a cultura e o lazer. E aí poderão entender por que fiz esse preâmbulo todo.

Parte 6 – Cultura e Lazer e Regina Casé

Esta dimensão da felicidade poderia ser chamada de “Bom Uso do Tempo Livre”. Entendo ser possível avaliar a felicidade de uma pessoa a partir da capacidade de gerenciamento e a qualidade de emprego do tempo livre com atividades que tragam sensação de alívio de estresse e bom humor.

Ainda que se deseje simplesmente não fazer nada e dormir, se esta atividade está ligada ao bem-estar pessoal, o descanso também poderá ser considerado uma atividade positiva para uma vida feliz.

De modo geral essas atividades são consideradas um alento ou recompensa de uma rotina de trabalho ou estudo extenuantes. Buscamos essas atividades num tempo livre como válvula de escape para o nosso estresse e ansiedade. Sair da rotina, viajar, ler um livro, visitar um museu, ir ao cinema, teatro são hábitos importantes para a higiene mental.

Mas neste enfoque eu estaria priorizando o trabalho, e não é este o exemplo que quero explicar.

A felicidade através dessa dimensão consiste em dar maior significado ao tempo livre. Uma vida que prioriza esta atividade evidencia a necessidade de se abrir a novas descobertas e ampliação de horizontes, na busca de uma vida dedicada as experiências culturais, de lazer e descanso.

As atividades que despertam o lado lúdico, festivo e criativo, em sendo elevadas à condição de objetivo, não são mais recompensa de uma vida de trabalho opressora, mas são desejos que nos enchem de expectativa e fazem valer a pena carregar o fardo.

A atriz e apresentadora Regina Casé pode ser considerada um talento nesta dimensão, devido ao seu espírito dedicado a descobertas e abertura a novas experiências. O texto de introdução da biografia resume e dá significado à sua escolha neste artigo:

“Poucos artistas brasileiros são tão identificados com o povo, com a periferia, como Regina Casé. E poucos nomes deixam uma trajetória tão divertida e coerente pela televisão, levando risadas, dignificando os mais carentes e abrindo espaço para que eles registrem suas vontades, anseios, gostos e reclamações”

Sua carreira no teatro, cinema e televisão poderia ter sido mais objetiva e voltada ao desenvolvimento das artes do seu mestre Sérgio Britto ou em seus programas de sucesso. Mas a partir do fim da TV Pirata, ela sentiu a necessidade de colocar na televisão as pessoas de universos diferentes, ligadas em especial à gente da periferia.

A partir de então, Regina emplacou uma série de programas que tinham esse propósito: buscar o ambiente popular e colocá-lo como protagonista. Nesta linha seguiram uma série de programas, como Programa Legal, Brasil Legal, Muvuca, Um pé de quê?, Central da Periferia e, por último o Esquenta.

Todos os programas mostraram ao público espectador a descoberta de personagens, lugares, anseios e lutas sociais, musicalidades, artes, arquiteturas, paisagens, etc., colocando na população o desejo de descobrir e se encantar com as curiosidades regionais, e nos populares, o desejo de se apresentar ao mundo com dignidade, sem ter a vergonha de ser feliz.

Um modo de vida que coloca a felicidade na busca por experiências culturais e de lazer exige entre outras coisas um amplo domínio sobre o uso do tempo, visto que, em especial para os que não são artistas, há uma predisposição inicial muito limitada, que dirá em aumentar o tempo dedicado a estas atividades.

Na maioria das vezes é preciso repensar trajetória de trabalho, com carga horária reduzida e ganhando até menos dinheiro, reduzindo a sua importância em significado para que possa voltar o olhar para as novas descobertas, em sair da rotina.

Isso não é uma utopia. Já existem pessoas que fazem essa opção de vida.

Quando as férias não são suficientes para rever a vida, algumas pessoas, em geral diretores executivos, pedem desligamento no topo da carreira para passar por um período sabático e repensar o sentido da vida na busca de novas experiências, de forma a recarregar as baterias para novos desafios futuros, ou mesmo mudança de vida.

E nem sempre os amigos e familiares entenderão de imediato esta opção – por isso fiz a recapitulação, pois sempre é preciso contrabalançar as opções verificando as demais dimensões que se associam.

E aí, qual é o tamanho do seu cansaço? Prefere se consumir numa vida com tempo para o lazer, cultura e descanso, na busca de uma felicidade na descoberta de novas experiências sócio-culturais?

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Talentos da Felicidade – Parte 5: Amigos

Neste quinto artigo da série, vamos observar uma maneira singular de busca da felicidade que vem mostrando seu valor: a felicidade através dos relacionamentos pessoais e amigos.

Antes, porém, é preciso explicar a palavra “amigos” no contexto de dimensão do tipo de vida do modelo de felicidade equilibrada que venho desenvolvendo nesta série.

De acordo com o que verifiquei no Wikipédia, a palavra amizade admite duas definições. A amizade strictu sensu é definida como “uma relação afetiva, a princípio, sem características romântico-sexuais, entre duas pessoas”; a amizade lato sensu é definida como “é um relacionamento humano que envolve o conhecimento mútuo e a afeição, além de lealdade ao ponto do altruísmo”.

Neste aspecto, pode-se dizer que uma relação entre pais e filhos, entre irmãos, demais familiares, cônjuges ou namorados, pode ser também uma relação de amizade, embora não necessariamente.

Sendo assim, neste caso estarei explicando a felicidade pela dimensão lato sensu da palavra amizade, pois é sobre os relacionamentos humanos afetivos onde se concentrará toda a explicação e a lição que o talento associado nos traz.

Parte 5 – Amigos e Mark Zuckerberg

Entre os artistas, poetas e compositores de músicas parece haver uma unanimidade quanto a importância das relações afetivas na felicidade das pessoas, haja vista a infinita capacidade deste tema de fomentar obras artísticas expressivas ao redor do mundo. Outrora o maestro Tom Jobim ousou proclamar: “É impossível ser feliz sozinho”.

Com efeito, o ser humano tem a necessidade vital de estabelecer relações com os demais grupos. É uma condição esta que existe desde as tribos pré-históricas: a cultura das relações funcionais, de confiança, de lealdade, de proteção. E desde então, isso vem sendo aprofundado para as questões afetivas, de afinidade, admiração, de respeito, de amor.

Neste raciocínio, a nossa sobrevivência sempre dependeu da construção de laços com demais pessoas. A partir da seleção natural dos nossos ancestrais, os mais fortes também foram os mais leais e construíram afeto, história essa que foi construída ao longo do tempo e hoje se torna presente intuitivamente.

Nos nossos dias a necessidade de construir laços fortes de relacionamento está ligada diretamente a questão do bem-estar psicológico e da resiliência emocional, pois para superar as dificuldades da vida ou para celebrar coisas boas é importante a presença das relações de apoio, quais sejam familiares ou de convivência diária nos ambientes que habitamos e adquirimos um senso de pertencimento.

Deste modo, uma vida feliz pode ser obtida pela qualidade e estabilidade das relações pessoais para o controle das emoções e sentimentos.

Assim como as demais dimensões, não se deve confundir o processo de construção de relacionamentos com a necessidade de ser popular e ter notoriedade.

Nesta era de redes sociais, de proliferação de conteúdos e dos hits de internet que se tornam memes (“Para nossa alegria”, “menos Luiza que está no Canadá”, “ninguém me tucuta” (sic), etc.), o usuário assumiu um poder de acumular seguidores por afinidade, de modo que “ter um milhão de amigos”, como preconizava Roberto Carlos, se tornou viável (ainda que distorcendo a mensagem original da música) a partir da quantificação de usuários em que se pode transmitir conteúdos e sentimentos.

No entanto, a coleção de amigos de redes sociais se dá apenas pelo aspecto utilitário das pessoas conectadas. Isto é, tenho o poder de ser amigo de quem pode ser útil aos interesses individuais de consumo; como consumidor, tenho o poder de comprar, consumir e descartar.

A relação de amizade verdadeira, por sua vez, supera o entendimento utilitário, pois não se conquista lealdade e confiança num ambiente efêmero e fugaz, tampouco a resiliência emocional e a estabilidade das relações a que me referi acima.

Mark Zuckerberg percebeu esta relação do senso de pertencimento nos grupos durante sua vida universitária em Harvard e o quanto ela era importante para a auto-afirmação das pessoas. No filme A Rede Social, obra de ficção baseada na sua biografia, o cenário social se caracteriza na importância, para os jovens, de pertencer a um grupo na sua vida social.

Tão importante para os jovens como era também para Zuckerberg, esta foi a motivação inicial do protagonista. Para isso, ele viu a necessidade de criar um ambiente controlado se baseadando em quatro condições básicas sobre as relações sociais: 1º) A necessidade de fazer parte de um clube (através de cadastro ou convite); 2º) Manter contato com as pessoas que conhece (conexões com amigos); 3º) Saber o que estas pessoas estão fazendo (timeline); 4º) Quem está interessado(a), tem ou não namorado(a), ou se está interessado(a) em alguém, entre outros (status, compartilhamento, fotos, etc.).

Esta visão concatenada criou o Facebook, a maior plataforma de rede social do mundo, com mais de 800 milhões de usuários ativos.

Este sucesso na criação do ambiente de rede social não foi suficiente para que ele criasse mais amigos para si. Ao contrário, ele teve muitos problemas e processos judiciais nas costas, mas se tornou um dos CEOs mais populares e admirados e dono de uma das empresas mais valiosas do mundo.

Ainda que os fins (ter amigos) não tenham se correlacionado com os meios de seu sucesso (inventar o Facebook), devemos atribuir a Zuckerberg o sucesso de ter colocado sua vida na busca de uma felicidade que teve como prioridade a construção de um ambiente novo para as relações sociais a partir da sua percepção e da necessidade crescente de estarmos conectados.

O sucesso e o fracasso caminharam lado a lado nesta opção de Zuckerberg de priorização para os relacionamentos, pois esse ambiente conduziu lado a lado as coisas boas e ruins: as necessidades afetivas vitais ao lado do narcisisimo e a superexposição em busca da popularidade.

Entendo que é assim também para os menos talentosos, porque este tipo de priorização é o que menos há condições de gerenciamento por parte da pessoa que faz essa opção. Se há o desejo de se viver uma vida em função da construção de relações sociais agradáveis, o sucesso não depende exclusivamente de seu próprio esforço.

É uma opção de alto risco, pois nem todos os seus amigos e familiares pensam da mesma forma. A pessoa corre risco é ser alvo de discriminação pelo próprio grupo de pessoas, seja por acharem que lhe falta de ambição na vida, ou ainda por se sentirem sufocados por tanto zelo.

A solução para esse dilema está no modo que conseguimos nos adaptar as mudanças e amadurecimentos que os relacionamentos passam ao longo do tempo, bem como na capacidade de renovação e na busca por encontrar novos amigos ao longo da vida. Precisamos ser generosos com nossos sentimentos para que eles se fortaleçam e se preparem para as novas surpresas no decorrer da vida.

Porventura o melhor amigo da sua vida não poderia estar ainda por vir?

E você, acredita que felicidade é ter amigos pra contar? Gostaria de viver uma vida de relacionamentos felizes e verdadeiros?

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Vivendo a conectividade

No início da era da informática popular, compreendida entre o advento do computador pessoal e início da Internet para usuários domésticos (no Brasil, ocorrida a partir da década de 1990), era bastante comum o uso dos termos “mundo real” e “mundo virtual” para definir os dois ambientes criados, isto é, que co-existem, são complementares, mas que seriam até então mundos separados, desconexos, diferentes.

Entretanto, neste tempos recentes parece não haver um limite entre a vida real e virtual. Criou-se uma dependência social de estarmos conectados em tempo real com o mundo a partir das novas tecnologias da informação, cada vez mais presentes e participantes da nossa mobilidade.

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Gerenciando conflitos: a parábola do feijão com arroz

Havia uma casa no interior onde moravam um pai e duas filhas, que tomavam conta da casa, enquanto ele ia trabalhar na roça. Bóia-fria que era, o pai valorizava o jantar em família e tinha dado a ordem pela manhã antes de sair para que as filhas para prepararem arroz e feijão para a hora do jantar, e dividiu esta tarefa com cada uma das duas filhas: uma era responsável pelo arroz e outra pelo feijão.

A filha que ficou de preparar o arroz, tão logo recebeu a ordem decidiu se planejar para preparar logo pela manhã. Organizou-se em verificar se faltava alguma coisa na cozinha, separou alho, cebola, temperos, panela e já preparou a quantidade ideal para que eles jantassem e que ainda sobrasse para o pai levar pela manhã na sua marmita. Antes do meio dia ela já havia preparado tudo.

Já a filha que ficou de fazer o feijão, boa cozinheira que ela, tinha noção de que fazer essa tarefa não lhe tomaria mais que uma hora, e ela via que algumas coisas que o pai não havia lhe pedido estavam desorganizadas, como a roupa dele que estava descosturada, sua foice que precisava ser amolada e que o deixava mais cansado, entre outros detalhes que nem ele e sua irmã se importavam neste momento. Então ela optou por se dedicar a estas outras coisas e preferiu fazer o feijão às cinco da tarde, uma hora antes do pai chegar, e assim o fez.

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