Arquitetura e Grafite: os muros que falam

O filósofo Alain de Botton, no livro “A Arquitetura da Felicidade”, sugere que estejamos abertos a ideia de que o ambiente em que vivemos nos afeta e que compreendamos a incapacidade das construções de solucionar mais do que uma fração das insatisfações.

Talvez ele pudesse ter chegado a essa conclusão ao observar algumas áreas da cidade onde encontramos muros e edificação que se deixaram degradar no tempo e que despertaram um sentimento de que poderia ser transformado e modificado através de uma arte gráfica impressa em seus muros.

E uma vez impresso esse novo significado, ele se reveste de um novo valor incorporado a paisagem adquirindo até mesmo status de patrimônio cultural. O Profeta Gentileza não me deixa mentir.

Incorreria o construtor, o arquiteto e o urbanista em culpa por construir projetos sem significado? Por que um grafiteiro sente a necessidade de imprimir esses significados? Por que a construção não fala o que esses artistas sentem? Resolvi propor uma entrevista com o especialista de arte em grafite Daniel Goaboy.

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Talentos da Felicidade – Parte 3: Educação

Este terceiro artigo da série abordará a Educação como prioridade para se alcançar uma vida mais feliz.

A dimensão Educação, da mesma forma que a Saúde e o Dinheiro, tem a caraterística de ser ao mesmo tempo uma dimensão a ser valorizada e um recurso disponível a ser empenhado. O foco depositado nestas três primeiras dimensões está intrinsecamente associado a busca de uma vida conservadora, voltada para a expansão das capacidades (financeiras, de tempo e habilidades) indíviduais para que possam exercer ponderadamente sua condição de cidadão.

Da mesma forma que os anteriores, vamos observar o talento associado e de que forma sua vida foi orientada.

Parte 3 – Educação e Paulo Freire

A educação pode ser definida como o processo de ensinar e aprender. Sendo um processo, é subentendida a existência de conhecimento e valores que são selecionados, apreendidos, aplicados, experimentados e repassados conforme o período mais apropriado para a pessoa.

Existe, pois, uma relação dependente entre si de acumulação de conhecimento com a prática vivente e com a sustentabilidade – garantir o acesso ao conhecimento para as gerações futuras continuarem a desenvolvê-los. Mas será esta a educação que é buscada como prioridade?

Nesta semana o jornal britânico The Huffington Post publicou artigo de Sarah Brennan sobre o assunto educacional, com a seguinte questão: “Que tal prepararmos crianças e jovens para a vida e não apenas para o mercado de trabalho?”. O artigo critica severamente o modelo de educação, afirmando que este transformou as escolas em “fábricas de provas” e os alunos, em peças de uma linha de montagem, preparados para o melhor desempenho acadêmico.

Vive-se diante de uma distorção do conceito educacional, que definiu o processo educativo como mero atendimento à demanda de mercado e de foco em produção e resultados. Estamos nos enchendo de títulos de diversos níveis, graduações, especializações, cursos de aperfeiçoamento, habilidades técnicas, idiomas, na ânsia por dar conta das exigências crescentes do setor produtivo.

Sarah Brennan alerta que questões como o bem-estar e resiliência emocional (capacidade psicológica de lidar com questões mentais e emocionais nos relacionamentos sociais) são negligenciadas na educação de crianças e jovens.

O compromisso com a educação como prioridade não se basta no processo de capacitação e treinamento de pessoas, se estes não estiverem alinhados a lógica sustentável referida.  Há de se considerar ainda o compromisso de produzir conhecimento, aperfeiçoá-lo e colocá-lo a serviço da sociedade.

Dentre os talentos que selecionei, Paulo Freire (1921-1997) talvez tenha sido o ilustre mais desconhecido da população geral – o que pode ser entendido como um sintoma da falta de importância que o Brasil tem dado ao assunto. Entretanto, é importante dar luz a este talento, que começou sua carreira como um aluno da faculdade de direito, mas que acabou seguindo um caminho diferente: como um educador.

Seu pensamento tem como base a educação libertadora, na qual defendia uma pedagogia em que a pessoa tenha condições de descobrir-se e conquistar-se como sujeito de sua própria destinação histórica. Em seu livro “Educação como Prática da Liberdade”, Paulo Freire fez uma crítica à educação tradicional no Brasil, e defendeu que seria necessária uma educação para decisão, para uma responsabilidade social e política.

Educação que o colocasse em diálogo sempre com o outro, através de uma visão crítica e não apenas passiva.

Freire concebeu um processo pedagógico de educar o sujeito histórico e politizado dentro de uma análise crítica da sociedade¹ . Seu pensamento guiou a prática de métodos educacionais renovadores, tendo como um de seus mais notáveis trabalhos suas primeiras experiências no Rio Grande do Norte, em 1963, quando ensinou 300 adultos a ler e a escrever em 45 dias.

Pessoas com o talento voltado para a priorização da educação tem como visão orientar sua vida para um desenvolvimento exterior. A partir de uma descoberta do seu intelecto, esta cria uma necessidade interior que impulsiona o indivíduo a compartilhar, convencer e ensinar seu conhecimento, de modo que este conduza as ações transformadoras daqueles que pertencem ao seu entorno.

Esta postura é radical e de enfrentamento diante do paradigma da linha de montagem, o que pode acarretar numa felicidade que não será aparentemente a mais agradável ao sistema nem à sua própria condição pessoal – Paulo Freire teve que viver exilado por 15 anos durante o regime militar.

A felicidade como educação é uma postura ideológica e suas ações são inevitavelmente políticas e voltadas para o desenvolvimento do indivíduo e da sociedade. É preciso coragem e perseverança na ação política, no campo educacional, nas escolhas e engajamento pessoal na educação continuada das futuras gerações, de modo que se possa construir os Quatro Pilares da Educação, segundo o relatório da UNESCO: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver com os outros e aprender a ser.

Mãos à obra!

E você, teria disposição de arregaçar as mangas e buscar a felicidade como educação critica e transformadora?

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A seguir o tema será o trabalho. Aguarde!

Sigam-me os bons!

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¹ O comentário sobre o livro foi extraído parcialmente do artigo publicado em: http://goo.gl/8KIuY

Será que já raiou a Liberdade?

Nestes últimos dias tive uma nova percepção na abordagem sobre a felicidade a qual me propus a divulgar. Desde a monografia venho idealizando um modelo coletivo baseado em: (1) reconhecimento dos recursos disponíveis e suas limitações , (2) estabelecimento das dimensões do tipo de vida que a pessoa decidiu valorizar, e (3) empenho dos recursos em todas as dimensões, sob orientação dos valores éticos, morais e sociais eleitos. Foi então que vi que existe uma condição indispensável nas escolhas e decisões para a busca da felicidade: a liberdade.

É preciso liberdade para alcançar verdadeiramente o entendimento dos recursos e limitações e garantir o controle dos mesmos. É preciso liberdade para estabelecer o tipo de vida. É preciso liberdade para empenhar recursos e para professar os valores que julgamos importantes. Um modelo de felicidade não é eficiente quanto aplicado para um indivíduo que tenha privações de liberdade, e não o levará ao desenvolvimento pleno.

Um prisioneiro ou um escravo tem o desejo de buscar a felicidade, mas não o fará sem liberdade.

Quando eu me refiro ao termo “prisioneiro”, não quero dizer somente daqueles que estão atrás das grades de uma cela. São muitos os tipos de prisões as quais o ser humano é submetido. Considero as mais perigosas aquelas prisões que se disfarçam de liberdade e atacam silenciosamente os três pontos do modelo que proponho; sejam as prisões: drogas, álcool, vícios, doenças, discriminação social, preconceito, racismo, corrupção, etc. Essas prisões sociais colocam o homem na mesma condição de um encarcerado ou escravo, sendo que “livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela”, como diz o samba da Mangueira de 1988. A diferença é que sobre estes que estão livres não houve julgamento e condenação que os colocassem atrás das grades ou acorrentados.

Esta visão nos leva ao entendimento de que a discriminação priva de liberdade raças e etnias de reconhecerem seus territórios e limitação de recursos e gera conflitos sociais, por vezes irreparáveis – exemplo disso é a questão dos paises do Oriente Médio; que o autoritarismo de modelos de beleza estampada no marketing feroz nos meios de comunicação é uma violência contra a maioria daqueles desprovidos deste padrão, privando muitas vezes o ser humano da liberdade de frequentar lugares, de se vestir como gostaria, de viver; que a falta de transparência política no empenho de recursos atenta contra a liberdade democrática e afasta aqueles que, por sua fé e valores, se vêem impedidos de participar de um processo social corrupto.

Com efeito, da mesma forma que a felicidade em se fazendo constar no direito constitucional não se tornará em si mesma uma garantia individual, é errado pensar que a lei garante a liberdade plena necessária à felicidade. Igualmente errado é atribuir ao Estado o poder de governar todas as liberdades, posto que as prisões sociais são consequências da livre escolha do indivíduo ou sociedade.

Portanto, se somos todos igualmente prisioneiros e escravos, temos uma missão: lutar diariamente contra toda tirania e opressão de nossas prisões e clamar por justiça e liberdade. Somente homens livres serão capazes de alcançar o desenvolvimento e a felicidade.