Sete coisas que deveríamos reclamar menos na vida

Um comportamento muito comum que observamos com mais frequência no convívio social é o hábito de expressar ruidosamente o descontentamento por qualquer motivo. Trocando em miúdos: estamos reclamando demais!

É evidente que temos esse direito de reclamar quando estamos insatisfeitos. Só que persistir no hábito de reclamar nos torna presos a analisar somente os efeitos da insatisfação, como se neles residissem a solução do problema, sem nos aprofundarmos na real causa. E isso nos coloca numa perigosa zona de conforto.

Tornamo-nos pessoas que só reclamam da dor quando ela realmente dói, quando poderíamos pensar em evitar a dor, ou aprender por meio dela alguma coisa.

Por outro lado, acredito que existem situações que realmente podemos evitar o chororô e adotar uma postura mais saudável. Vamos mudar nosso foco na busca de resolver o problema e evitar a reclamação que não dá em nada. Separei aqui uma lista de eventos e situações adversas, nas quais poderíamos ser melhores ao lidar com elas:

sete coisas

1. Das condições do tempo

A meteorologia é algo que afeta tão fortemente o cotidiano das pessoas que geralmente é o pontapé inicial de qualquer conversa quando se fica sem assunto. É muito natural utilizar das famosas frases quebra-gelo  “que calor!”, “que frio!”, “vai dar praia no sábado?”, “será que vai chover?”.

Como efeito deste fator natural, vivemos a reclamar quando o tempo não nos favorece em alguma circunstância particular. Reclamamos do calorão na hora de dormir, do tempo nublado quando se desejava ir à praia, da chuva quando se está pronto a ir ao trabalho, do frio quando é preciso ir para a rua, etc.

Este é o tipo de reclamação que não leva a coisa nenhuma. O clima é algo inerente a nossa vontade e vai acontecer por suas próprias leis físicas ou por providência divina. E as alterações no tempo são necessárias para o equilíbrio ecológico do nosso planeta, portanto sempre são coisas boas.

Então por que não aproveitar as potencialidades de cada condição meteorológica para aproveitá-la da melhor maneira possível? Dançar na chuva quando a chuva vem…

2. Da falta de tempo

Uma vida com multitarefas é uma opção que cada pessoa faz com liberdade. E esta livre escolha implica em consequências que vão ao limite do tempo (este não meteoro, e sim chronos) que dispomos da hora que acordamos até a hora de dormir – sem contar os que viram noite em claro.

Por conta desta vida, é muito comum estarmos apegados aos processos rotineiros e adicionarmos outras, numa tentativa de elevar o grau de significado que temos perante a vida.

Entretanto, por vezes extrapolamos a capacidade humana e queremos ser como Deus: onipotente, onipresente e onisciente. E esta tentativa é frustrada diariamente: não é possível dar conta de tudo. E, mesmo assim, reclamamos, paradoxalmente, que: “não tenho tempo para nada”. Como não temos tempo para nada se fazemos tantas coisas???

Em vez de reclamar do tempo, não é melhor abandonar o “ser onipotente” e delegar tarefas? Não é melhor abandonar o “ser onipresente” e dizer “não” aos convites que aparecem, ainda que decepcionem alguém importante? Não é melhor abandonar o “ser onisciente” e deixar as coisas menos importantes acontecerem naturalmente e fora do seu controle?

Pode ter certeza que este desapego será traduzido em horas valiosas a serem utilizadas para fazer o que realmente importa na busca da sua felicidade.

3. Do trabalho

Passamos boa parte da vida no trabalho e, na medida da convivência diária, nos deparamos com expectativas e decepções dia após dia. E por diversos motivos ficamos insatisfeitos.

Reclamamos do chefe porque ele é mandão demais e de menos. Reclamamos por não sermos reconhecidos à altura do potencial que acreditamos ter. Reclamamos porque o aumento e a promoção de cargo não veio. Reclamamos dos colegas fofoqueiros, das injustiças, das panelinhas, da bagunça dos processos, do excesso de cobrança e de serviço, da falta de educação das pessoas… Afff… quanta coisa!

E por geralmente estarmos subordinados a uma organização hierárquica, é normal nos colocamos a parte dos problemas e atribuímos sempre aos lideres a responsabilidade de tudo. Reclamar do superior é muito mais fácil.

Não significa dizer que as insatisfações são ruins, ou que se deve ser sempre uma vaquinha de presépio a concordar com tudo que está errado. Mas e a nossa parte com isso?

Apesar de tudo de errado nunca podemos deixar de lado a capacidade criativa e empreendedora do ser humano. Pense diferente! Por que não iniciar uma postura melhor no seu trabalho? Ofereça ideias, sugestões, provoque discussões. Dedique-se a compreender profundamente o que está te deixando insatisfeito.

Se não houver solução dentro do seu ambiente, não desista: olhe para fora. Será que não é hora de mudar de setor ou de empresa, estudar para concursos públicos, abrir seu próprio negócio, mudar de ramo profissional? Nunca é tarde para mudar, mas faça a mudança enquanto há tempo.

4. Da família

“Esta família é muito unida, e também muito ouriçada.

Brigam por qualquer razão, mas acabam pedindo perdão”

(A Grande Família, compositores: Tom e Dito)

Família é uma generosa fonte de emoções. Para o bem e para o mal.

Muitas vezes – até mesmo diariamente, são inúmeros motivos para nos aborrecer. Reclamamos de coisas banais do convívio em uma casa: como toalha molhada, lixo que não foi tirado, louça na pia, comida que não gostamos, luz acesa, contas elevadas a pagar, etc.

Mas a família ainda tem uma peculiaridade na fonte de reclamação, diferente de todas as outras: temos a chance de entrar no detalhe, analisamos comportamentos, atitudes, fazemos críticas, damos palpites sobre detalhes de relacionamentos  – e não só sobre os que fazem diretamente parte do diálogo, mas dos outros.

Esta lista tende ao infinito quanto mais temos possibilidade de vislumbrar seus pormenores. E, não satisfeitos, ainda trazemos parte dessas reclamações em outros ambientes – às vezes inapropriados.

Nestes casos, deveríamos aprender aquilo que a sabedoria popular diz: família é tudo igual, só muda o endereço. Já são muitos os problemas a resolver. Outros podem levar o resto da vida para serem solucionados. Sendo assim, por quê não estabelecer um foco e ser prudente?

Existem problemas que são pequenos demais e não são administrados por pura vaidade ou preguiça. É preciso ter esperteza e ver as prioridades: separar o que é urgente do que é necessário e do que é apenas um conselho. As coisas podem ser resolvidas sempre de várias formas, e nem sempre é a SUA forma se fazer é a ÚNICA ou a MELHOR forma de se solucionar o problema.

5. Do corpo

Em tempos de redes sociais incorporadas à vida social, é impossível não ser indiferente à exposição da sua imagem perante aos outros, tenha ou não uma conta de internet. Em razão disso, estamos ávidos por consumir boas aparências e também sermos fontes dela: queremos ser bonitos, jovens e felizes enquanto conectados.

Por essa pressão, estamos sempre reclamando da nossa aparência: estamos sempre gordos, sem músculos, cabelo sem corte, barba e/ou depilação malfeita, unhas por fazer. Se esta preocupação fosse somente por uma questão de cuidado pessoal, na busca de uma melhor qualidade de vida e da longevidade, não seria o problema. Mas nunca é. E nem sei se já fora em algum tempo.

Fato é que essa vaidade exacerbada está diretamente relacionada com a necessidade de estarmos prontos para uma bela foto, para uma pose, para uma imagem, para ganhar curtidas e comentários e condicionar nossa autoestima na busca deles. E como nunca é suficiente, reclamamos e muito quando confrontamos nossa imperfeições.

Acho que está na hora de darmos um freio nessa escalada armamentista da mídia conectada. O mundo precisa de ser humanos melhores, e não só dos mais bonitos. É hora de dar um basta nesta cultura anestesiada de beleza, pois as pessoas, apesar de mais bonitas e com mais acesso aos serviços de beleza, não são plenamente felizes e nunca o serão para sempre..

Deveríamos ser mais gratos àquilo que Deus nos permitiu ser, pois se existimos imperfeitos e diferentes, há uma inteligência que explique, ainda que levemos a vida toda para entender.

6. Da televisão

Esta é uma das fontes mais calorosas de reclamação. Não há uma pessoa que não tenha parado para reclamar de uma emissora, de um programa ou de um trecho dele.

Apesar de vivermos uma transição de comportamento, de uma geração que era vidrada na tela da TV para uma geração que fica um olho na TV e outro na internet ao mesmo tempo, a televisão ainda exerce forte influência no entretenimento familiar. E ainda é a televisão a responsável pela maior disseminação de ideias e de influenciar comportamentos.

Mas sempre quando recai em alguma questão que nos contraria em determinado ponto, seja do aspecto legal, moral ou religioso, nos voltamos contra o programa e a emissora que está transmitindo. Mais comum ainda é acusar produtores e donos das emissoras de exercerem um poder de ditadores, de adestradores da sociedade, manipuladores de opinião, de que trabalhar a serviço do governo, do interesse privado, do capital, etc.

Efetivamente, todas as emissoras fazem esse tipo de coisa, na busca desregrada pela audiência e atenção dos espectadores. Mas os espectadores não são obrigados a assisti-los. Ninguém coloca um revolver na cabeça te obrigando a assistir o Jornal Nacional e não assistir outros noticiários. Por que, apesar de tanta opção, ainda nos colocamos pacatos e indefesos espectadores?

Xingar a Globo é mole, mas se não mudar de canal, o “plim-plim” vai ouvir seus xingamentos e responder: agradecemos sua audiência e a sua paciência. Devemos usar o nosso poder diante das mãos. E neste caso se chama controle remoto! Desligue, ligue, mude de canal, acesse outras fontes, aprofunda-se no assunto que lhe agrada e no que é verdadeiro. Não adianta querer que as emissoras mudem, elas só querem a sua audiência.

7. Dos políticos

Este é um ponto polêmico e é preciso que eu explique sobre o que estou me referindo – ao excesso de reclamação que fazemos aos políticos. Todos nós temos direito e dever cidadão de reclamar das políticas públicas que estão sendo executadas e que se opõem às prioridades definidas pelos seus eleitores. Mas quando a reclamação é um fim em si mesmo, ela não frutifica.

A imprensa noticia diariamente vários casos de negligência, incompetência, corrupção, desvios éticos, falcatruas aos montes. Estas denúncias faz com que a sociedade se sinta indignada e a impulsiona contra o Estado, passando a cobrar por mais eficiência, transparência e honestidade.

Na medida em que esses escândalos ecoam e se forma a chamada opinião pública, a sociedade pode ter três reações: (1) ela se torna descrente no papel das instituições e desacredita no seu próprio poder de reação, se conformando com a corrupção (donde deriva comentários do tipo: “isto é Brasil”, “a corrupção deste país não tem solução”, etc.); ou (2) ela assume sua responsabilidade pelo todo através da mobilização social em associações, sindicatos, entidades de classe, Igreja, partidos políticos –  em casos extremos, associações terroristas, para-militares, grupos de enfrentamento; ou (3) reclamar de tudo e de todos, aguardando que eles resolvam nossos problemas.

É nesta ultima que reside a minha crítica. Existe uma tendência fortíssima à terceirização das nossa decisões, como fazemos ao contratar determinado serviço aguardando que ele nos satisfaça num produto. É um erro gravíssimo! A política não é uma relação de consumo. Os políticos não tem a obrigação de agradar aos seus consumidores.

A relação entre o Estado e o indivíduo comum não é uma simples troca de interesses. Somos igualmente responsáveis e não dá simplesmente para lavar as mãos. Tampouco não adianta sair inocentemente às ruas pedindo o fim da corrupção ou a renúncia de determinado político se nem ao menos buscamos saber como funciona um governo, um ministério, uma secretaria, quais são as leis, direitos, deveres, etc.

Devemos ser menos reativos ao sentimento de caos e de descrença e colocar a cabeça para funcionar. Podemos até instaurar uma revolução contra a ordem constituída, mas ela não se faz apenas pelo sentimento ou pelo desejo. Associe-se a grupos. Entenda as ferramentas de atuação. Construa uma massa crítica. Forme pessoas pensantes. Seja criativo.

Reclamar por reclamar não adianta. Continuemos reclamando, mas não devemos parar de construir. A solução depende de nós mesmos, arquitetos da felicidade.

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