Memórias e lições de um “arqui-sem-teto”

Eu vivi intensamente a Jornada Mundial da Juventude JMJ Rio 2013. Esta experiência influenciará a história do Arquiteto da Felicidade de agora em diante na internet. E tenho certamente muitas histórias para contar por anos e anos.

Mas por se tratar de um blog que fala de arquitetura, resolvi me prender a uma experiência da JMJ que para mim foi de grande importância e que mudará para sempre a visão sobre a arquitetura e a cidade: viver como um peregrino e dormir na rua como um sem-teto.

A experiência vivida

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Vou me prender ao período compreendido entre os dias 26, 27 e 28 de julho de 2013 para fazer esta reflexão. Vamos aos fatos.

Sexta-feira, dia 26, eu estava no meio da multidão que estava a assistir o show católico nas areias da praia de Copacabana, numa noite fria e chuvosa de inverno como nunca se viu no Rio de Janeiro. Fui embora triste pois o show havia sido interrompido por causa dos manifestantes que se infiltraram à multidão e gritavam palavras de ordem contra a JMJ e o governador do estado. Mas apesar dos xingamentos, não houve nenhuma violência no protesto.

Peguei o ônibus e quando cheguei à Tijuca percebi que minha carteira havia sido furtada durante o show. Perdi todos os cartões de banco e carteira de motorista. Só havia me sobrado três cartões que estavam fora da carteira: o bilhete único eletrônico, o bilhete do metrô e o cartão de alimentação do peregrino. Naquele momento achei que minha jornada tinha chegado ao fim, pois temia pelo retorno dos protestos e estava “sem lenço e sem documento”.

No sábado, dia 27, o dia havia amanhecido com sol, mas estava ainda com dúvidas como faria para continuar a jornada. Foi quando percebi que deveria ir à Copacabana de qualquer maneira, pois precisava fazer o registro de ocorrência para o pedido de segunda via da habilitação junto ao Detran. Bom, então eu iria assim mesmo, mas não pensava em ficar direto lá.

Ao ligar a televisão, pois procurava saber detalhes de como seria a segurança no sábado, o apresentador disse que devido ao tempo bom, a expectativa era de 3 milhões de pessoas em Copacabana. Era o que me faltava para decidir: vou continuar a jornada e dormir lá.

O transporte de 3 milhões de pessoas seria impraticável (já estava sendo) e perderia muito tempo para o deslocamento.  Ainda mais porque deveria estar no posto de trabalho voluntário as 6h de domingo para a Missa de Envio. Dormir na praia seria a única opção.

Fui para a rua e cheguei à noite na praia. Muitos peregrinos já estavam acampados na areia desde a manhã de sábado. Era impraticável tentar achar um lugar na areia. Estava diante da maior população de moradores de rua da história do Brasil.

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Eu estou no centro da foto, de casaco e boné de aba amarela

Então eu e meus amigos peregrinos tivemos que dormir próximo ao palco, no asfalto da Avenida Atlântica, na companhia de pessoas de todas as partes do mundo. A esta altura, já eram 23h e fazia 16ºC e umidade do ar elevada, o que faz a sensação térmica ser de muito frio.

Ajeitamos nossas roupas, casacos, sacos de dormir, mantas e toalhas, estendemos no chão, apoiei minha cabeça na mochila e junto ao meio fio e dormi durante dois períodos de cerca de duas horas: de 23h a 1h e de 2h as 4h.

Às 4h de domingo, dia 28, já faziam 12ºC e acordamos para ir ao posto de trabalho voluntário combinado.

E assim estava eu: sem dinheiro, dormindo na rua, passando frio e contando só com o meu anjo da guarda para me proteger.

O valor do homem a partir do nada

Esta foi a experiência mais próxima que tive da pobreza extrema de um morador de rua. E que me serviu de aprendizado para sensibilizar com causas que até então conhecia apenas intelectualmente, mas não sentia.

Primeiramente, percebi que ser sem-teto é uma condição social que tem como uma de suas causas a incapacidade dos estados em dotar a cidade de infra-estrutura de transportes que permita o sujeito buscar seu abrigo. Como se sabe, muitos destes tem casas em outras cidades e não tem como pagar a passagem ou moram muito longe das áreas com emprego. Onde dormir à beira-mar é a única forma de acesso às boas áreas da cidade.

Em segundo lugar, ser um morador sem um teto é uma condição social de desamparo, onde a população está entregue a toda sorte de perigos nas ruas e expostos ao frio, mesmo diante de um insensível castelo de pedra de habitações destinadas à especulação imobiliária, à dinâmica capitalista e aos magnatas em hotéis 5 estrelas à beira-mar.

Urge, pois, rechaçar este modelo previamente estabelecido de cidade que exclui e marginaliza populações. Não basta acreditar que teremos um cidade feliz enquanto houverem seres humanos serem feridos na sua dignidade e na privação do direito à cidade. É preciso mudar as prioridades.

O valor da arquitetura a partir da ausência de teto

Isto serviu ainda para redescobrir a principal função da arquitetura destinada a seres humanos. Arquitetura nada mais é do que construir tetos, abrigar gente, proteger o ser humano contra as agressividades do meio ambiente.

Arquitetura não é comércio. Não é oportunidade de investimento. Não é um punhado de metros quadrados de uma planta. Não é um empreendimento de incorporadoras.

Porque nada disso faz sentido ao ser humano. Isso só faz sentido ao dinheiro por si mesmo. Esta lógica não gera desenvolvimento humano, não gera inclusão social, não nos faz mais felizes, não garante direito à cidade.

Arquitetos, não podemos mais nos conformar em servir ao mercado. Precisamos servir às pessoas. Precisamos pensar cidades inclusivas e justas. Precisamos fazer a nossa parte para que as noites frias não arruínem nossa profissão.

Vem para a rua!

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Dedico este artigo a todos os amigos que fizeram parte da história mais feliz da minha vida durante a Jornada Mundial da Juventude JMJ Rio 2013

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