PARALELISMOS: Termas de Vals, a obra prima de Peter Zumthor

por MARCIO COSTA
Correspondente da Felicidade

Contextualização

Acredito profundamente que o “fenômeno arquitetônico” apenas será devidamente compreendido quando observado e presenciado através dos nossos cinco sentidos. A arquitetura só é interiorizada quando nos envolvemos com ela, quando estamos rodeados por ela e quando com ela interagimos, seja através da visão, da audição, do olfato, do paladar ou do tato.

Ao atentar para origem da palavra arquitetura, encontro nela a devida fundamentação para esta afirmação. Constato que etimologicamente ela é composta por duas palavras derivadas do Grego: [arkhé] que significa “Principal” e uma outra que considero ser importante para a sua definição [tékhton], na qual se traduz “Construção” e onde se encontra toda a base desta ciência.

Arquitetura nada mais é do que a arte de construir, através de uma técnica, adequada a uma determinada época, num determinado local, inserido numa cultura específica, com um contexto socioeconômico e político que lhe está inerente. Deste modo, da mesma forma que a ciência necessita da experimentação para a verificação de hipóteses, a arquitetura só surge quando ultrapassada a barreira do mundo imaterial para o mundo físico, através da construção.

Consequentemente, creio que para analisarmos, estudarmos e entendermos o “fenômeno arquitetônico” e todas as suas intenções nele expressas, teremos que estar presente fisicamente diante dessa realidade.

Foi com este pensamento na bagagem, que quando parti para a Suíça aceitei o convite para escrever um artigo para este Blog, sobre um edifício muito peculiar, situado em plenos Alpes suíços, na vila de Vals.

A obra prima de Peter Zumthor: Termas de Vals.

FIGURA 1 - BRASIL_SUIÇA
Viagem do Brasil à Suiça – Fonte: Marcio Costa

Envolvente

7h30m da manhã de Domingo. Parti da estação de trem de Luzern em direção a Vals, numa jornada que duraria cerca de três horas e meia.

Viagem ao interior da Suiça - Fonte: Marcio Costa

Vals é uma pequena vila suíça, localizada a 1.252m de altitude, situada num vale, no interior dos Alpes suíços. O centro da vila é cercado por casas tradicionais, construídas majoritariamente em madeira, que se expandem ao longo da linha do vale.

O cinzento é o tom predominante na vila, suas coberturas em duas águas revestidas a pedra local predominam, permitindo deste modo que se integrem harmoniosamente com a verdejante paisagem envolvente, onde a presença dessa mesma pedra é uma constante nas encostas. Deste modo, tendo como cenário a presença imponente dos Alpes Suíços, arquitetura e natureza caminham lado a lado numa simbiose perfeita onde a serenidade, tranqüilidade e o silêncio imperam. (FIGURA 3 e 4)

É neste cenário que se localiza o mais importante cartão postal desta pequena vila e um dos edifícios mais famosos no mundo da arquitetura, o Spa termal desenhado pelo arquiteto suíço Peter Zumthor.

O volume que repousa tranquilamente sobre a encosta foge do nosso alcance visual devido à sua implantação em relação aos edifícios que o envolvem. Rodeado a Norte pelo hotel, por um par de edifícios de apartamentos a Este e pela encosta a Oeste, apenas somos confrontados com a obra de Zumthor pelo lado nordeste do terreno, onde um espaço entre o hotel e o edifício multifamiliar nos permite visualizar timidamente o edifício entre a abundante neve e as árvores despidas de folhagem.

Mapa de Implantação de
Mapa de Implantação da Thema de Vals – Fonte: Marcio Costa

Ao contrário de uma obra de Ghery ou Hadid, este primeiro encontro não se torna impactante nem provocativo, não nos faz reagir devido a sua imponência e forte expressão formal como nas obras destes dois arquitetos. Pelo contrário, a sua materialidade provocando a sua difusão na paisagem, a sua expressão formal e sua disposição horizontal no terreno nos transmite um sentimento de que o edifício faz parte da geografia existente, pretendendo “amigavelmente” se relacionar com a envolvente e não se afirmar e reagir perante esta.

 “When we look at objects or buildings that seem to be at peace within themselves, our perception becomes calm and dulled. The objects we perceive have no message for us; they are simply there… Here, in this perceptual vacuum a memory may surface…”

 “Quando olhamos para objetos ou edifícios que parecem estar em paz em si mesmos, a nossa percepção se torna calma e entorpecida. Os objetos que percebemos não tem nenhuma mensagem para nós, pois eles estão lá simplesmente … Aqui, neste vácuo perceptual uma memória pode vir à tona … “

Peter Zumthor

Após iniciarmos uma pequena subida pela encosta em direção ao hotel de Vals, a estrutura implantada paralelamente às linhas de encosta, no alinhamento norte-sul do vale, surge então levemente aos nossos olhos, através de sua geometria pura e suas fenestrações de várias dimensões, subtraídas a esse bloco de pedra para permitir que o exterior penetre no interior.

FIGURA 6

Trata-se de um edifício que parece que sempre habitou e sempre pertenceu àquele lugar desde a sua primária existência. Um edifício pequeno e contido que se relaciona com a sua geologia local e que responde positivamente aos restantes volumes de pedra presentes na vila, volumes esses também contidos, prensados e revestidos em pequenas placas de pedra local. Essa relação pode ser observada na sua estratégia de implantação, através do volume semi-enterrado no terreno, com seu telhado constituindo uma extensão da topografia existente, contribuindo para uma acentuação da horizontalidade e da leveza do volume de pedra, enfatizando a relação entre o edifício-topografia-envolvente.

“The building takes the form of a large, grass covered stone object set deep into the mountain and dovetailed into its flank. It´s a solitary building which resists formal integration with the existing structure in order to evoke more clearly and achieve more fully what seemed to us a more important role : the establishing of a special relationship with the mountain landscape.”

“O edifício tem a forma de um grande objeto de pedra coberta pro grama, colocado profundamente na montanha e encaixado em seu flanco. É uma construção solitária que resiste a integração formal com a estrutura existente, a fim de evocar de forma mais clara e alcançar mais plenamente o que nos pareceu um papel mais importante: o estabelecimento de uma relação especial com a paisagem montanhosa.”

Peter Zumthor

O ato do banho

O banho era praticado na Antiguidade nos rios e lagos como um ritual de purificação religiosa, associado à imersão. Um local de culto, onde a cura era obtida através do ritual de se banhar, beber a água termal e dormir num ambiente fechado. Porém, através dos tempos serviu também como prática de higiene pessoal, tratamento de saúde, convívio social ou celebração.

Os romanos foram o povo da antiguidade que mais se importaram com transformar o banho num evento, construindo termas públicas onde qualquer cidadão poderia desfrutar dos prazeres do banho. A maior parte das cidades romanas tinha pelo menos um edifício dedicado aos banhos termais, não só exclusivamente para o ato de banhar mas também para o de socializar, acreditando que a boa saúde era oriunda de banhos, comida, massagens e exercícios.

Deste modo, fica evidente um paralelismo entre a obra de Peter Zumthor e os rituais antigos no que diz respeito à prática do banho. As termas de Vals não se limitam apenas ao cumprimento de um rigoroso programa funcional, elas possuem um caráter místico, transformando o banho não apenas num corpo imerso em água, mas numa cerimônia e num ritual de pureza, através da iluminação natural tênue, dos espaços na semi escuridão, numa atmosfera tranqüila, silenciosa e relaxante, que nos leva de volta à Antiguidade.

Conceito

Antes do início desta jornada, tentei eliminar qualquer tipo de informação, turística ou arquitetônica, relativa ao edifico em questão. O objetivo era primeiramente obter a percepção pessoal do fenômeno arquitetônico que iria testemunhar e abstrair tudo aquilo que tinha absorvido sobre Vals e suas termas, para que nada influenciasse a minha interpretação. Tentei colocar de parte a minha formação de arquiteto me transformando num simples turista que disfrutaria de seu banho termal, em plenos Alpes suíços. Porém essa tarefa foi extremamente difícil quando me deparei com uma obra extraordinária como esta.

A curiosidade, o conhecimento e o desejo de contato com diferentes culturas sempre me acompanharam ao longo da vida. Meu fascínio pela história de civilizações antigas e suas respectivas origens creio ser uma consequência dessa mesma curiosidade que adquiri quando, após a minha formação, iniciei uma série de  viagens a diferentes partes do mundo.

Similaridades

Petra é uma cidade localizada na Jordânia, às margens do deserto montanhoso do WadiAraba e um dos locais arqueológicos mais importantes do mundo. O seu nome provém do grego “Petra” que significa pedra, um dos principais materiais presentes na paisagem, que como consequência é denominada também de “cidade das rochas”.

Uma das principais características de Petra, quando atentamos na sua paisagem, é a presença de arenitos que, devido à sua grande quantidade de óxido de ferro, pintam a cidade de amarelo, rosa e vermelho.

Petra in Jordan tourism destinations

Aproveitando as características e a facilidade de trabalhar este material local, os habitantes de Petra, ficaram famosos não só pela sua extrema habilidade de esculpir sua arquitetura diretamente nas rochas, potencializando ao máximo a expressão deste material, mas também pelos seus sistemas de túneis e de reservatórios de água que abasteciam toda a cidade.

A cidade ergue-se como uma enorme pedreira, onde as montanhas iam sendo esculpidas pelos seus habitantes de acordo com as suas necessidades arquitetônicas e urbanísticas.

Uma das principais obras arquitetônicas da cidade, considerada hoje uma das sete novas maravilhas do mundo moderno, segue este principio. Uma rocha avermelhada esculpida à mão, a partir de um bloco único de pedra, onde o processo de subtração tirou partido, partindo das suas linhas naturais e fissuras existentes, para desenhar e transformar uma simples rocha num edifício que ficaria na memória por muitos anos, o Khazneh.

FIGURA 12 blog.burrard-lucas.com

Por trás de sua impressionante fachada, se encontra uma área de formato quadrilátero, de cantos e arestas bem definidas, que fora subtraída da rocha da montanha, uma típica tipologia praticada em Petra para os espaços que albergam os túmulos. Sem nenhum tipo de ornamento, o seu interior à semelhança das termas de Vals, é ornamentado única e exclusivamente pela presença dos veios e das fissuras naturais da pedra local, onde a ausência de elementos visuais supérfluos é evidente para que o olhar e a mente não se desviem da sua função principal dentro deste espaço. (FIGURA 13)

Perto de Khazneh presenciamos também uma série de rochas esculpidas, contendo túmulos menores, que aleatoriamente distribuídos nos surgem como pequenos buracos negros, que transformam o que era antes uma simples rocha numa “fachada” porosa e ritmada.

Foi este cenário que me invadiu a mente, quando pela primeira vez avistei as termas de Vals.

Tal como Petra, um grande bloco de pedra local e de geometria bem definida emerge na montanha como se tratasse de um monólito que habitasse aquela paisagem há vários séculos. Uma massa de pedra porosa de cavidades subtraídas do volume, na fachada e no topo. O seu interior é acessado através de um túnel que liga o hotel às termas e por ele somos conduzidos por uma espécie de “sistema de canais”, como que escavados na própria montanha, para permitir o seu acesso às diferentes partes programáticas do edifício. Iluminados apenas por luz artificial, o ambiente escuro dado pelas paredes, pisos e tetos de cor cinzenta e preta nos guia desde a recepção até aos vestiários e às diversas áreas de serviço.

FIGURA 18

O contato com o exterior é nulo, a sensação de estarmos sob a superfície terrestre é sentida através da materialidade e da ausência de qualquer sonoridade. Finalmente “os canais” deságuam numa “gruta imensa”, um espaço contínuo fisicamente, porém limitado visualmente, ao qual chegamos pelo topo. Khazneh me visita novamente, o interior das termas parece um espaço esculpido diretamente da rocha, Vals Gneiss, a pedra local nos envolve por todos os lados, da mesma forma que nos envolve os arenitos vermelhos naquele espaço geométrico em Petra.

Esta continuidade da materialidade através das superfícies do edifício é um elemento crucial no fornecimento de uma tranqüilidade visual e mental que nos leva a um nível de relaxamento elevado.

Descendo até a parte inferior o contato com a água é inevitável. O espaço é descoberto à medida que o percorremos, e a “gruta imensa” nos apresenta vários conjuntos de outras grutas e cavernas fechadas onde o encontro da água, pedra, pele e luz natural difusa, criam uma atmosfera propicia à abstração da vida agitada do cotidiano e oferecem uma dimensão mística ao ato do banho. Aqui o tempo não existe, não há relógios, apenas o movimento do sol penetrando pelas pequenas fendas na cobertura nos dá a noção de que o tempo não parou.

  “In Spirit, we had started to break the construction site, the slope in front of the hotel, as if it were a quarry, carving huge blocks out of it and adding others. Water began flowing and collecting in the crevices, cavities and gullies that emerged. Mass and hollow, openness and compactness, rhythm, repetition and variation – those were our concerns while drawing the quarry sketches. And in the process of mentally hollowing the mass, a large in-between space emerged, a vast, interconnected context, a spatial continuum that became more and more fascinating. Our bath, a huge spatial continuum, a room that I walk into and instantly experience as a whole even though I can never see it all at once. I have to walk through it, discovery it step by step.”

“Em espírito, começamos a quebrar o local da construção, a inclinação na frente do hotel, como se fosse uma pedreira, esculpindo e retirando fora grandes blocos e adicionando outros. A água começou a fluir e era captada nas fendas, cavidades e ravinas que surgiram. Massa e vazio, abertura e compactação, ritmo, repetição e variação – aquelas eram as nossas preocupações ao desenhar os esboços da pedreira. E no processo de mentalmente esvaziar a massa, um grande espaço no meio surgiu, um vasto contexto interligado, um contínuo espacial que se tornou mais e mais fascinante. Nossa casa de banho, uma enorme continuidade espacial, uma sala que entro e instantaneamente experiência como um todo, embora eu nunca consiga ver tudo de uma vez. Eu tenho que passar por ela, descobrindo-a passo a passo”

Peter Zumthor

Luz

A fachada Este se apresenta na sua máxima forca e a linha horizontal da laje de concreto, sobreposta às diferentes camadas de pedra dispostas horizontalmente, acentua a ligação do volume com o terreno.

Uma das formas de iluminação é através de suas janelas, “cavidades” extraídas do volume, com diferentes tamanhos, possuindo um ritmo e alternância que estão diretamente relacionadas com a funcionalidade e hierarquia espacial interna, capazes de produzir uma variedade de sensações inerentes a cada espaço.

Captando a natureza através de seus vãos, estas cavidades trazem a luz natural e a paisagem envolvente para dentro do espaço, estimulando deste modo os sentidos em relação à tranquilidade e serenidade interna, conseguindo captar o exterior sem arruinar o ambiente interno.

 Uma segunda forma de iluminação está relacionada com a estrutura do edifício que é constituída por um sistema modular de volumes cúbicos, em que cada um destes volumes suporta uma laje de concreto em balanço.  O espaço que surge no topo entre cada laje forma uma série de fendas que cobrem toda a superfície da cobertura e que contribuem para uma acentuação da geometria e definição espacial. Essas fendas, além de constituírem uma fonte de luz natural, permitem que o peso visual das lajes de concreto desapareça, fazendo com que a cobertura pareça flutuar no espaço.

As luminárias pendentes no interior do edifício possuem uma luz fraca e amarelada que nos remete para uma viagem à antiguidade, onde este tipo de iluminação era característica da atmosfera que os banhos públicos costumavam possuir.

Conclusão

Poderá um edifício mudar o modo como agimos e pensamos?

Poderá ele possuir o poder de nos afetar a nível emocional?

Estas são algumas questões que me deparei depois de visitar as Termas de Vals.

De fato, não se consegue ficar indiferente a esta brilhante obra de Peter Zumthor, de alguma maneira ela nos toca, não da maneira que os edifícios de Ghery ou OMA o fazem, mas de uma maneira sutil, respeitosa e “diplomática” que nos leva a ponderar e a refletir sobre as diversas questões ligadas à vida humana.

O edifício não é apenas um abrigo com uma função inerente, comum a todos os projetos de arquitetura. Não se trata apenas de uma simples associação de imagens bem sucedida, a sua existência nos transporta de sua natureza física para um mundo metafísico, um mundo de sensações.

Através das águas termais e do ato de banhar, o edifício comporta-se como um elo entre pessoas e natureza, fazendo com que os três possam coexistir numa simbiose perfeita.

A materialidade, a ausência de luz, a abertura calculada e direcionada dos vãos, a ausência de ruído, a sonoridade da água e a ausência do tempo nos remetem para uma realidade paralela onde o stress, a pressão e a ansiedade do dia a dia são eliminados e esquecidos temporariamente.

“In order to design buildings with a sensuous connection to life, one must think in a way that goes far beyond form and construction.”

“Para projetar edifícios com uma conexão sensível para a vida, deve-se pensar em uma maneira que vai muito além da forma e da construção.”

Peter Zumthor

Sobre o Autor

marcio

Marcio Costa é português, natural da cidade do Porto, arquiteto desde 2007, formado pela FAUTL, em Lisboa. Trabalhou com renomados arquitetos portugueses como Manuel Salgado e Álvaro Leite Siza Vieira, obtendo uma proximidade muito grande com os trabalhos de Eduardo Souto de Moura e Alvaro Siza Vieira – prêmios Pritzker. Seu trabalho é fortemente influenciados pelos modernistas Le Corbusier, Louis Kahn e Oscar Niemeyer. Atualmente realiza trabalhos no Brasil, onde fundou juntamente com dois sócios a empresa Veqtor Arquitectos Associados, e aceitou gentilmente o pedido para ser correspondente de arquitetura deste blog.

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3 comentários sobre “PARALELISMOS: Termas de Vals, a obra prima de Peter Zumthor

  1. Excelente documentário, efetuado por Márcio Costa, que nos incrementa a sensibilidade para o fenómeno arquitetónico. Gostei.

    Fernando Costa

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