Ciência busca a Felicidade

Por ELIZABETH WEIL – Reportagem do The New York Times, publicado pela Folha de São Paulo de 29/04/2013

Young Doctors Smiling

Sonja Lyubomirsky diz que você tem um nível fixo de felicidade, que é parcialmente codificado nos seus genes. Sua sensação de felicidade aumenta quando uma coisa boa acontece e diminui quando a coisa é ruim.

Mas, nos dois casos, não demora muito até que seu humor volte ao nível fixo, num fenômeno que a ciência chama de “adaptação hedônica”. Você sabe, a gente se acostuma com tudo.

Com seu livro “A Ciência da Felicidade”, de 2007, e com a sequência “The Myths of Happpiness” [Os mitos da felicidade], lançado neste ano, Lyubomirsky, professora de psicologia da Universidade da Califórnia, em Riverside, firmou-se como um baluarte da indústria da felicidade.

Suas conclusões podem ser provocativas e, às vezes, contraintuitivas. Locatários são mais felizes que senhorios, diz ela. Interromper experiências positivas as torna mais agradáveis. Atos de gentileza tornam as pessoas mais felizes, mas não se elas forem compelidas a realizarem o mesmo ato com excessiva frequência – levar café na cama para a pessoa amada é uma delícia, fazer isso todos os dias parece uma obrigação.

Sonya: “Odeio as carinhas sorridentes, arco-íris e gatinhos”

Lyubomirsky talvez pareça uma improvável guru do humor.

“Eu realmente odeio todas as carinhas sorridentes, arco-íris e gatinhos”, disse. Ela não costuma listar as dádivas que recebe nem escrever cartas de gratidão, embora suas pesquisas sugiram que isso torne as pessoas mais felizes.

Durante anos, temendo que o estudo sobre como aumentar a felicidade fosse considerado fútil demais, ela preferiu focar com distanciamento clínico, quase antropológico, as características categóricas das pessoas felizes e infelizes. Mas todos lhe perguntavam: como a felicidade funciona? Como ser mais feliz?

Então Lyubomirsky finalmente voltou sua pesquisa para essas perguntas.

Ela descobriu que os infelizes se importam muito com comparações e resultados. Eles tendem a se sentir melhor quando recebem avaliações ruins, mas ficam sabendo que outros se saíram ainda pior, do que quando recebem excelentes avaliações, mas sabem que outros foram melhores.

Em uma experiência, ela pedia a dois voluntários por vez que usassem marionetes para dar uma lição de amizade a uma audiência infantil imaginária. Depois, os manipuladores eram avaliados comparativamente: você foi ótimo, mas seu parceiro foi melhor, ou você foi mal, mas seu parceiro foi pior.

Os voluntários que estavam felizes antes da avaliação em geral se importavam pouco ao saber que haviam sido inferiores aos colegas. Os voluntários infelizes ficavam devastados. Escreve Lyubomirsky: “Parece que os indivíduos infelizes compraram a máxima irônica atribuída a Gore Vidal: ‘Para a verdadeira felicidade, não basta ter sucesso… Os amigos devem fracassar'”. Isso, diz ela, provavelmente explica por que tanta gente conhece a palavra alemã “Schadenfreude” (alegria com a desgraça alheia) e quase ninguém conhece o termo iídiche “shep naches” (alegria com o sucesso alheio).

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Lyubomirsky, 46, nasceu em Moscou e emigrou aos nove anos para os EUA com os pais e o irmão, com ajuda da Sociedade Hebraica de Auxílio ao Imigrante.

Na Universidade Harvard, foi aluna de Brendan Maher, apontado como o responsável por ter transformado a psicologia de uma ciência “fraca”, baseada em observações, em uma “forte”, baseada em dados. Após a faculdade, ela se transferiu para a Universidade Stanford, na Califórnia, onde seu orientador a aconselhou a estudar a felicidade.

“Na época”, disse Lyubomirsky, “só uma pessoa estudava a felicidade: Ed Diener. Chamava-se então ‘bem-estar subjetivo’, e o tópico era considerado muito obscuro”.

Lyubomirsky passou aquela década tentando definir como eram as pessoas felizes e as infelizes. Segundo seu amigo Andrew Ward, hoje no departamento de psicologia do Swarthmore College, na Pensilvânia, “a premissa de trabalho naqueles anos era de que as pessoas felizes ficavam racionalizando o tempo todo”.

Como a felicidade muda no decorrer do tempo

Então, Lyubomirsky concebeu uma experiência em que as pessoas classificavam dez sobremesas, sabendo que comeriam uma.

Elas sempre recebiam a segunda ou a terceira opção e eram então orientadas a refazer a classificação dos dez doces.

Quem racionalizava as sobremesas recebidas? Os infelizes.

Segundo Ward, as pessoas felizes diziam: “Bom, essa sobremesa é boa, e tenho certeza de que as outras são boas também!”. Os infelizes gostavam mais ou menos das suas sobremesas, mas indicavam estar extremamente aliviados por não terem recebido a “horrível” sobremesa não escolhida. “Em outras palavras, as pessoas infelizes menosprezavam a sobremesa que não tinham recebido, ao passo que as pessoas felizes não sentiam a necessidade de fazer isso. A implicação é que pessoas infelizes fazem mais trabalho mental.”

Em janeiro de 1999, Seligman e Mihaly Csikszentmihalyi, autor de “A Psicologia da Felicidade”, convidaram Lyubomirsky e alguns outros psicólogos acadêmicos com menos de 40 anos para irem a Akumal, no México.

Numa praia perto de Tulum, o grupo redigiu um manifesto da Psicologia Positiva.

Eles definiram esse campo como “o estudo científico do ótimo funcionamento humano” e proferiram “um novo compromisso por parte dos psicólogos pesquisadores de focar atenção sobre as fontes da saúde psicológica, indo assim além da ênfase anterior na doença e no distúrbio”.

Hoje, Lyubomirsky não se considera uma psicóloga positiva e acha que a palavra “positiva” é desnecessária.

“Realmente não estou interessada nas pessoas felizes”, insistiu ela. “Estou interessada em como a felicidade muda no decorrer do tempo e quais estratégias podem aumentar a felicidade.”

Ela disse que, numa recente mudança familiar, seu marido, Peter Del Greco,queria comprar uma grande TV de alta definição. “Eu disse a ele: ‘Você vai se adaptar a ela’. É claro que ele continuou querendo. E se adaptou a ela.”

Lyubomirsky não acha que as pessoas irão aprender a não se adaptar.

“Estamos focados demais no agora”, disse ela. “O presente é tão chamativo. É inerente.”

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