Por uma Feliz Cidade de verdade

Neste fim de semana, saiu uma matéria no suplemento do Jornal O Globo do dia 3 de março de 2013  sobre a felicidade do Rio de Janeiro, minha cidade.

Para ser sincero, foi meu chefe no escritório quem levou este suplemento para que eu lesse sobre o assunto – eu confesso que não tenho hábito de comprar O GLOBO. Ele se interessou em levar ao meu conhecimento esta matéria para que eu pudesse formar uma opinião sobre o assunto.

Como percebi que o suplemento ganhou um enorme destaque num jornal tradicional, achei por bem registrar uma opinião sobre a reportagem sob o ponto de vista do Arquiteto da Felicidade e sua busca por uma vida mais feliz e desenvolvida.

Sobre a matéria

O GLOBO divulgou os resultados de uma pesquisa de opinião contratada pelo jornal junto à agência Quê Comunicação e Casa 7 Núcleo de Pesquisa chamada “O carioca e a felicidade”, onde eram feitas perguntas aos entrevistados algumas questões gerais de opinião e percepão do entrevistado em relação à cidade.

A matéria não dá detalhes da metodologia aplicada, se haviam opções pré-definidas ou eram respostas espontâneas. O foco da reportagem é claramente apresentar os resultados para depois buscar pessoas com hábitos diversos que pudessem justificar as afirmativas.

Alguns dos dados apresentados foram:

FELICIDADE O GLOBO

A reportagem segue apresentando relatos de cidadãos comuns, que sempre colocam a relação com o mar, com a praia, com a paisagem natural e com bairros privilegiados da Zona Sul e, mais recentemente,  a relação dos moradores de comunidades pacificadas com o todo da cidade, como se a velha “Cidade Partida” (asfalto x favela) estivesse dando lugar a integração social onde todos podem desfrutar desta felicidade.

A pesquisa elenca como problemas, que afetam a satisfação do carioca, nesta ordem, a segurança, saúde, dinheiro, injustiça social, falta de respeito e trânsito.

Zeca Pagodinho foi considerado pela pesquisa a personificação da felicidade do carioca, por seus hábitos bonachões e de boa prosa, de quem leva sempre a vida conforme ela nos leva, por ser feliz e grato a Deus por viver no Rio de Janeiro.

A reportagem atribui o alto astral do carioca como uma relação direta com lugares da cidade que inspiram as pessoas a serem mais felizes, em geral com a natureza, praias e o Cristo Redentor.

Mas o que realmente importa?

Eu prefiro pensar que a jornalista fez uma matéria de entretenimento para alegrar o jornal. O que considero bastante oportuno, em geral é denso de matérias políticas, econômicas e de editoriais que, por vezes, nos cansam. A matéria parece que dá um refresco e para comemorar o aniversário ocorrido na sexta-feira anterior, exalta a felicidade de ser carioca.

Só que pelo que a reportagem dá a entender, a felicidade carioca estaria diretamente relacionada com a proximidade dos eventos da Copa do Mundo e Olimpíadas e pela política da pacificação (nas reportagens ao decorrer da semana). É é neste ponto que eu gostaria de pontuar.

Sempre tive como princípio dos meus argumentos de que é preciso considerar a felicidade das pessoas na busca de um modelo de desenvolvimento que leve em consideração todas as dimensões do tipo de vida que o cidadão leva e decidiu valorizar.

E acho interessante que, apesar de não termos políticas que façam essas considerações, os resultados sejam tão positivos conforme apresentados.

Tudo dá a entender que a pesquisa foi feita com perguntas pouco abrangentes no tocante às dimensões em que se refletem o desenvolvimento de uma cidade mais feliz.

Considerando o que diz  a pesquisa, que a Felicidade do carioca está diretamente relacionado ao meio ambiente, cultura e lazer, não foi citado como problemas que afetam esta visão de Felicidade, como a poluição das águas e do ar, o desmatamento, a falta de acesso as áreas de lazer.

Do mesmo modo, quando colocamos a segurança como um problema, não vemos que ela tem relação com as áreas de maior felicidade da cidade (nas áreas de lazer), e sim com as áreas que não são inspiradoras neste contexto, como as comunidades não-pacificadas.

Uma cidade feliz e desenvolvida

A avaliação da felicidade de uma cidade baseada nas opiniões de opções de lazer e de desfrute é a mesma avaliação de um turista que passa pela cidade sem compromisso com a rotina, que não convive com seus problemas diários, que passa poucos dias e vai embora, só levando fotografias e lembranças.

Na vida real, o sol de verão que nos alegra num domingo e maravilham o olhar só duram até a próxima chuva forte que geram enchentes, alagam toda a cidade e detonam com a mobilidade e com o humor do carioca.

Se de fato o jornal deseja levar aos leitores a reflexão sobre a felicidade carioca, é preciso mais do que cartões-postais a serem admirados. É preciso ligar o assunto à visão do desenvolvimento urbano e social da cidade.

Não se pode deixar de falar das prioridades que a cidade precisa decidir. É preciso avaliar a suficiência de nossos recursos financeiros, naturais, territoriais e humanos na busca de um desenvolvimento que seja duradouro e sustentável.

É preciso considerar os efeitos do nível de renda, da saúde, da educação, do tipo de emprego, da ampliação do acesso à cultura e lazer, da convivência em sociedades plurais e democráticas, do respeito ao meio ambiente e das condições familiares e afetivas. Tudo isso compõem a paisagem que contemplamos e fotografamos.

Somente a partir da compreensão de todos estes aspectos pode-se estabelecer políticas urbanas que priorizem os recursos necessários para o aumento da felicidade e acentuem as vocações naturais da cidade, e não ao contrário.

Por fim, meu recado é: por favor, levem o assunto a sério! Felicidade não pode ser tratada com esse oba-oba hedonista, da cidade das delícias e prazeres, e nem com orgulhos ufanistas que buscam atribuir mega-eventos e políticas circunstanciais e relacioná-los ao  aumento da felicidade.

Eu sou carioca, amo minha cidade, mas quero uma Feliz Cidade de verdade, que dê as condições necessárias para que cada um possa buscar sua vida feliz à sua maneira.

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