Arquitetura e Grafite: os muros que falam

O filósofo Alain de Botton, no livro “A Arquitetura da Felicidade”, sugere que estejamos abertos a ideia de que o ambiente em que vivemos nos afeta e que compreendamos a incapacidade das construções de solucionar mais do que uma fração das insatisfações.

Talvez ele pudesse ter chegado a essa conclusão ao observar algumas áreas da cidade onde encontramos muros e edificação que se deixaram degradar no tempo e que despertaram um sentimento de que poderia ser transformado e modificado através de uma arte gráfica impressa em seus muros.

E uma vez impresso esse novo significado, ele se reveste de um novo valor incorporado a paisagem adquirindo até mesmo status de patrimônio cultural. O Profeta Gentileza não me deixa mentir.

Incorreria o construtor, o arquiteto e o urbanista em culpa por construir projetos sem significado? Por que um grafiteiro sente a necessidade de imprimir esses significados? Por que a construção não fala o que esses artistas sentem? Resolvi propor uma entrevista com o especialista de arte em grafite Daniel Goaboy.

“Muro branco é igual a um povo mudo”

O designer audiovisual e grafiteiro Daniel Goaboy é integrante do grupo Mafia 44, que reúne grupo de artistas urbanos, reunindo MCs, fotógrafos e grafiteiros e atuam na região metropolitana do Rio de Janeiro, Niterói e São Gonçalo. Ele é o autor da frase acima. “É uma frase que gosto e falo sempre que sou contestado por fazer grafite. Deixa colorir, que eu vou “falar” pra caramba! (risos)”.

Segundo ele, a arte grafite escolhe intencionalmente esses lugares por terem a necessidade e dar vida ao que parece estar morto. “A maioria dos grafiteiros gostam de pintar esses lugares ruins por ser “ruins”. Ruins para a sociedade, para os transeuntes, para os frequentadores, e principalmente para os que moram lá sem opção de estar em outro lugar.”, comenta Goaboy.

Os locais abandonados e mal conservados da cidade são escolhidos pelos grafiteiros também por serem terrenos férteis para a liberdade de expressão. O grafiteiro explica:

“Como esses lugares geralmente estão abandonados, não perdemos tempo em argumentos para fazer uma pintura. A gente tem a liberdade de criar algo nosso, sem pitaco de pessoas ou clientes pedindo para mudar aqui, mudar ali, trocar a cor, faz isso, faz aquilo. Apenas pedimos autorização aos moradores, que sempre se amarram em ver uma arte de graça e bonita onde elas convivem.”

Os arquitetos, urbanistas e engenheiros não projetam a cidade para criar áreas abandonadas. Construções são erguidas para determinada funcionalidade e sua arquitetura expressa o valor daquela atividade ou pensamento dominante. Será que os territórios da liberdade do grafite representam o fracasso da arquitetura? O grafiteiro nos absolveu desta culpa:

“Acredito que não e culpa de arquiteto, ele não vai criar algo caído, podre, com infiltrações, sujo. O arquiteto cria normal, mas o tempo vai transformando o local”, responde Goaboy.

Atualização da paisagem

Então entendi que essa natureza da obsolescência na arquitetura provoca uma necessidade de atualizar a mensagem, que é uma das virtudes dessa arte urbana. Essa liberdade de expressão permite ao artista compor painéis que refletem valores ou denunciam injustiças e opressões.

Segundo Goaboy, os temas abordados pelo grupo Mafia 44 segue a filosofia “Tapa na Cara”, expressão que dá nome aos temas fortes e cotidianos dos painéis.

“Fizemos paineis que retrataram temas como o crack, o deslizamento do (morro do) Bumba, a infância perdida, sobre políticos, os catadores de rua, a dengue. Estamos neste momento montando um mega painel que vai falar sobre a Ditadura”, disse o artista que, apesar de respeitar a liberdade de expressão, tem uma opinião critica daqueles que fazem arte sem ligação com a realidade:

“Ultimamente os grafiteiros preferem fazer um grafite bonito, mas que não passa uma mensagem. A gente pensa ao contrario: temos uma arma de comunicação muito forte para a cidade e sociedade, não podemos gastar isso à toa. Temos obrigação retratar o nosso cotidiano, aquilo que as pessoas fingem ou tentam fechar os olhos para a realidade. Somos um dos poucos grupos do Rio que fazem esses temas fortes.”, comenta.

A partir disso, constatei então a dificuldade de ser propor uma arquitetura representativa de tantos valores,e questões sociais que fervilham em debates, e expressões na necessidade urgente que elas precisam ser retratadas. O desenvolvimento urbano sempre ficará atrás das demandas sociais e reflexões sobre os valores, nessa corrida contra o tempo.

O grafite tem um potencial enorme a explorar, dada a necessidade de refletir o que realmente importa na busca de uma vida mais feliz e desenvolvida.

Felicidade, liberdade e realidade

Qual seria o grau de prioridade que precisaríamos dar para que utilizemos melhor essa arma de comunicação? O que os governantes deveriam fazer para utilizar dessa arma? Goaboy denuncia que ainda há muito preconceito quanto à arte. Existem cidades em que o grafite é proibido por lei.

“Em São Paulo o (prefeito) Kassab apaga (os painéis) e é lei”, relata. “Nós, grafiteiros, não podemos ser hipócritas e falar que tem que ter verba para pintar tudo, enquanto tem bairros que nem esgoto tem. Não apagando os grafites, já estaria de bom tamanho.”

Quando consideramos a felicidade como um dos efeitos a serem considerados no crescimento, há de se incluir o papel desses artistas, através do diálogo que eles propõem como os muros que falam.

“A pessoa pode ficar feliz, alegre, com raiva, assustada, revoltada, emocionada, pasma, hipnotizada… Todas essas sensações e reações nós da Mafia 44 já presenciamos, observando as pessoas após algumas pinturas nossas. É bem interessante, mesmo quando o comentário e negativo. É o que a gente quer: impactar as pessoas e fazê-las refletir sobre a pintura. Sendo a favor ou contra, o que importa é que elas questionem”, comenta Goaboy

No dia que a cidade parar para prestar atenção sobre o que os muros tem falado sobre nós, teremos a chance de recriar nosso modelo de cidade, de desenvolvimento e de Felicidade.

Confira outras fotos

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