Talentos da Felicidade – Parte 8: Meio Ambiente

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O último artigo da série abordará uma felicidade que se realiza na defesa de um meio ambiente sustentável. Esta felicidade pode ser considerada a dimensão mais nova dentre os tipos de vida propostos. E nos últimos tempos é a mais incentivada, pelo menos no discurso. Vejamos como o talento selecionado viveu sua felicidade com esse propósito, com menos discurso e muita prática.

Parte 8 – Meio Ambiente e Chico Mendes

A felicidade como busca de um meio ambiente equilibrado e comprometido com a sustentabilidade é um conceito ainda muito recente, em construção. Durante muitos anos a grande preocupação social era a vitória do progresso “contra a selva”.

Outro dia, vi esse comercial da década de 70 sobre a Rodovia Transamazônica onde esse discurso era evidente e, naquele contexto, exibir a derrubada da floresta em rede nacional era motivo de orgulho. Este comercial foi premiado em Cannes em 1972.

Alguns anos depois, o discurso ambiental era de proteger a camada de ozônio, combatendo o uso do gases CFC, utilizados em sprays e aparelhos de ar condicionado. Mais a frente, foi a questão da poluição dos oceanos em face dos derramamentos históricos de petróleo da decada de 80 nos EUA.

O termo desenvolvimento sustentável, que hoje é uma forte bandeira ideológica – e uma marca de alto valor comercial, foi criado somente em 1987 pelo Relatório Bruntland, que o definiu como “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades.”

O comercial abaixo, gravado apenas 20 anos após o vídeo anterior, é um notável exemplo da mudança brutal na visão ambiental da sociedade sobre a Amazônia.

Em termos históricos, os acontecimentos dos últimos 40, 50 anos na questão ambiental são muito recentes. Talvez por essa razão, até hoje não se sabe ao certo como viver uma vida assim. Então já que está em aberto, arriscarei a definir uma vida feliz neste contexto.

No modelo proposto, a felicidade que prioriza esta dimensão da vida se assemelha à dimensão anterior, Sociedade, pois entende o desenvolvimento sustentável como um bem comum.

Significa dizer que é uma vida em que suas ações práticas, hábitos de consumo e visão política priorizam o compromisso com a gestão dos recursos naturais e na construção de um ambiente para uma vida humana digna, sob a premissa do respeito aos diversos ecossistemas coexistentes.

Entre o discurso e a prática até que já evoluímos, pois agora já nos preocupamos com o desmatamento das florestas. Só que o mercado percebeu essa necessidade das pessoas deixarem de ser vilãs do desenvolvimento sustentável e criaram produtos que nos “lavam” e nos tornam ecologicamente corretos, o que é denominado greenwashing, algo do tipo “banho de loja ecológico”.

Em miudos: que parece mas não é. Além desse produtos de enganação, ainda que haja a preocupação com o consumo de produtos idôneos, estes na prática tem se tornado um grande filão do mercado.

Não interessa aos novos produtores verdes questionar os padrões de consumo fora da realidade local. Querem mesmo é ganhar dinheiro!

Trocamos lâmpadas incandescentes pelas eletrônicas de mercúrio, mais econômicas e altamente contaminantes, mas jogamos estas no lixo comum. Trocamos sacos plásticos por bolsas retornáveis no supermercado, mas continuamos a comprar carne para churrasco desconhecendo sua procedência, se são de áreas de manejo ou de desmatamento. Compramos bicicletas para reduzir a poluição do ar, mas contemplamos o sonho do carro zero – e instalamos o rack para a bicicleta, evidentemente.

Enfim, o conceito de consumo e de hábitos sociais ainda tem muito a evoluir até que a Pegada Ecológica seja incorporada de fato à cultura.

Dadas essas distorções, para se alcançar a felicidade por um desenvolvimento sustentável, é necessário subir o tom, ir além da necessidade de demanda de produtos verdes.

É preciso pensar de fato um projeto de desenvolvimento em que se consiga abrir mão de parte do conforto moderno dos poucos que tem acesso, em prol da igualdade de condições das comunidades locais para usufruir do meio ambiente, onde haja garantia do direito à terra.

Somente a lógica de mercado e a pressão de latifundiários não foram suficientes até hoje para promover o equilíbrio desejado.

Chico Mendes (1944-1988) foi um exemplo de trajetória biográfica que não se deteve apenas no que é ecologicamente correto ou em simplesmente “ficar bem na fita. Filho de pais nordestinos que foram colonizar o Acre atraídos pela produção de borracha, Chico Mendes na sua juventude trabalhava com os pais com seringueiro no município de Xapuri, lugar marcado pela carência de condições básicas e proliferação de doenças na Amazônia.

Embora o governo arrecadasse milhões de dólares pelos impostos sobre atividade econômica da extração da borracha, o governo não reaplicava nada na melhoria das condições dos habitantes. Foi então que, influenciado pelos ideais comunistas difundidos por seu tutor Euclides Fernandes Távora, um aliado de Luis Carlos Prestes e participante da Intentona Comunista de 1935, Chico começou a entender o significado da exploração dos seringueiros, a luta de classes com referencias a Lênin e Marx.

Os pilares da sua luta ambiental foram erguidos a partir da organização social dos seringueiros. Chico militou junto ao movimento sindical para difundir seus ideais sobre os direitos da terra e organização sindical.

A Igreja Católica teve importante papel na trajetória de Chico Mendes, foi militando nas comunidades eclesiais de base que Chico cultivou lideranças (uma dessas aliadas era Marina Silva, então monitora das comunidades eclesiais de base) e um combativo senso de propósito entre os isolados habitantes da floresta.

Conforme crescia a especulação das terras no Acre no final  dos anos setenta, os trabalhadores começaram a se organizar para a tarefa de impedir os cortes das árvores.

Como fruto deste movimento, a comunidade internacional enfim começava a se sensibilizar e se articular para exigir do governo brasileiro uma  postura mais rígida com relação às queimadas e desmatamentos na Amazônia. O conflito entre os dois modelos de desenvolvimento, um baseado na pecuária extensiva e outro baseado no extrativismo dos recursos florestais parecia que caminhava para um desfecho de entendimento entre as partes.

Chico Mendes era figura mais atuante no movimento sindical e ambientalista. Porém acreditava que uma atuação político-partidária seria uma forma de fortalecer o  movimento e garantir as melhorias para os seringueiros.

A luta de Chico Mendes pela preservação do modo de vida dos seringueiros e conservação da floresta amazônica chamou a atenção do mundo. Em julho de 1987, Chico Mendes recebe o prêmio global 500, concedido pela ONU às personalidades que mais se  destacaram na defesa do meio ambiente. Ainda assim, o desfecho da luta acirrada entre os seringueiros e os fazendeiros culminou no seu assassinato em 1988, aos 44 anos. (¹)

Chico foi um homem de vanguarda e é até hoje um exemplo de vida dedicada à luta pelo desenvolvimento sustentável, antes mesmo desse conceito ter sido inventado. Todavia, como podem notar, levantar essa bandeira é mais do que vestir uma camisa verde com dizeres vagos e abraçar árvores nas pracinhas, ou somente basedo em mudanças de hábito e atendimento à novas demandas de mercado – como se este mercado não fosse questionável.

Significa o despreendimento da zona de conforto dos nossos dias, onde prevalece o interesse individual na busca de benefícios pessoais e rentáveis no tempo presente. Significa o compromisso em mobilização social em favor desta importante causa.

O planeta grita em silêncio pedindo socorro e precisa de vozes humanas, para que, através destas pessoas, ecoem da Terra os clamores pela necessidade de promover uma nova prioridade no desenvolvimento, no qual a busca da felicidade se dá a partir da conquista de um modelo pleno de desenvolvimento sustentável para todos.

Quem está disposto a encontrar sua felicidade neste caminho?

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Bem… encerrada esta série oito artigos sobre pessoas com vidas felizes, no próximo post explicarei o porquê de estar fazendo papel de psicólogo e sociólogo para construir uma arquitetura da felicidade.

Sigam-me os bons!

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Nota (¹):  O texto da biografia foi reproduzido parcialmente do link indicado como fonte biográfica.

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