Talentos da Felicidade – Parte 7: Sociedade

Neste penúltimo artigo da série, falaremos da busca de uma vida mais feliz e desenvolvida dedicada à vida comunitária, na busca da transformação do mundo exterior por ações políticas, sejam estas de Estado, organizações sociais, entidades de classe ou cooperativas. Talvez esta seja a mais subjugada dimensão da felicidade, face ao individualismo dos nossos dias e ao desinteresse pelas questões públicas. Seria esse o motivo de tantas pessoas não se sentirem satisfeitas com a vida?

Parte 7 – Sociedade e Zilda Arns

A dimensão sociedade dentro do modelo proposto significa a valorização das atividades voltadas ao bem comum. Engloba as questões do exercício da cidadania, da promoção e defesa dos direitos fundamentais, ações de proteção e solidariedade aos desamparados, participação nas ações políticas e de governança territorial, trabalhos voluntários e comunitários, engajamento em entidades civis organizadas, igrejas, cooperativas e associação de pessoas, campanhas filantrópicas e demais atividades relacionadas com a comunidade, seja qual for a escala.

Em tempos de bonança que vivemos, onde há muitos anos vivemos em ausência de guerras em nosso continente sul-americano, onde as ameaças da tirania e a opressão das ditaduras e a bipolaridade mundial dos sistemas econômicos ficaram no século passado, e temos direitos e liberdades garantidos por Constituição Federal democrática, esse papo de engajamento perdeu seu encanto, posto que se vive uma era sem ideais comuns congregadores.

Sendo assim, o pensamento na sociedade se restringe ao cumprimento da obrigação de votar, fazendo da urna um depósito no qual colocamos o nosso problema dentro e tratamos como se não fosse problema nosso.

Quem já não ouviu a máxima: “os políticos é que têm que resolver, eu votei e eles estão sendo pagos para resolver esses problemas”. Isso quando o sujeito vota, pois tem a máxima daquele que anula o voto e diz: “o povo votou nesse políticos e veja o que dá; por isso é que não voto” (como se aquele que diz isso não fosse povo, deve ser um E.T.).

Mas, saindo da política de Estado, e eleição de síndico, alguém se interessa?

E debates em entidade de classe? Assembléia de sindicato para aprovação de acordo coletivo ou declaração de greve, então…. quando podemos nos abster disso assim o fazemos em via de regra.

A felicidade como a busca do bem comum da sociedade segue o caminho oposto à lógica anterior. Esta busca da felicidade parte do princípio de que o indivíduo pode ser mais feliz ao deixar de pensar só em si mesmo; de que vale à pena lutar pela justiça social ao entender que não é possível que um só seja feliz no meio de um mundo de desigualdades e de privação de direitos e liberdades; de que a competitividade e o individualismo são incapazes de substituir ou superar a cooperação e a solidariedade.

Zilda Arns (1934-2010) foi um grande exemplo de que tudo isso que me referi não é uma utopia ou capacidades de pessoas super-poderosas.

De acordo com sua biografiasua carreira de médica foi guiada à atuação junto à saúde pública infantil, iniciada no estado do Paraná, onde assumiu importantes cargos e projetos de saúde e campanhas de vacinação. Em 1983, Zilda Arns e Dom Geraldo Majella, à época Arcebispo de Londrina, fundaram a Pastoral da Criança, organização social ligada a CNBB, instituição da Igreja Católica.

Foi então que Zilda desenvolveu a metodologia comunitária de multiplicação do conhecimento e da solidariedade entre as famílias mais pobres, baseando-se no milagre da multiplicação dos dois peixes e cinco pães que saciaram cinco mil pessoas, como narra o Evangelho de São João (Jo 6, 1-15).

A educação das mães por líderes comunitários capacitados revelou-se a melhor forma de combater a maior parte das doenças facilmente preveníveis e a marginalidade das crianças. De acordo com dados de 2011, a Pastoral da Criança tem cerca de 200 mil voluntários engajados no atendimento de mais de 1,4 milhão de crianças pobres de 0 a 6 anos (15% das crianças pobres do país) e 1,1 milhão de famílias e está presente em 70% dos municípios do Brasil.

Zilda Arns faleceu em 2010 quando estava em missão humanitária para implantar a Pastoral da Criança em Porto Príncipe, capital do Haiti, num terremoto que devastou o país caribenho. Sua morte teve repercussão internacional naquela ocasião.

Esta trajetória da Pastoral da Criança é um exemplo de que um trabalho que tem o objetivo o bem comum exige daqueles que acreditam um trabalho sério, ético e um espírito abnegado. Mas construir um trabalho social nos nossos tempos é uma tarefa das mais árduas, devido a falta de credibilidade das pessoas nas instituições.

Quem se propõe a lutar pelo bem comum é visto muitas vezes como um espertalhão, que quer levar vantagem em tudo, ganhar dinheiro das doações, se auto-promover a algum cargo eletivo, ganhar contratos públicos, sonegar imposto de renda.

A felicidade como valorização do bem comum significará na prática uma luta contra grandes moinhos de vento: contra o espírito individualista e competitivo, contra a cultura da corrupção, contra os estigmas das instituições desacreditadas.

Os abnegados revestidos de Dom Quixote, serão ridicularizados, chamados de loucos e serão a cada dia postos à prova, ou terão que morrer em favor de uma causa, como Zilda Arns.

Vale a pena? Não sei se pra você, leitor. Mas ainda bem que existem poucos corajosos que lutam por todos nós, medrosos e acomodados.

A luta continua. Vamos, companheiro? Deixe seu comentário ou opinião no blog ou na página do Facebook. Curta a página!

Fecharemos esta série no próximo artigo, onde será discutida a dimensão ambiental da Felicidade.

Sigam-me os bons!

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